A nova onda de patriotismo e xenofobia
A cada dia é mais comum se ouvir comentários sobre os imigrantes e seu papel na sociedade. “Eles estão pegando os empregos dos brasileiros”, “Empregos brasileiros para brasileiros” é um discurso comum e até mesmo o atual presidente, Jair Messias Bolsonaro, o repete frequentemente.
Um descendente de italianos aposentado a mais de vinte anos, sem qualquer ligação com o “mercado de trabalho”, o repete sem entender o contexto do que está criticando.
Em primeiro lugar temos a dualidade explícita na frase: o “nós versus eles”. Essa dualiade fundamenta uma identidade, a identidade nacionalista. Brasileiros versus venezuelanos, brasileiros versus haitianos. Nós, brasileiros, versus os outros, os estrangeiros.
Não é uma forma nova de pensamento mas o resgate da ignorância que embasava os movimentos fascistas, nazistas, neonazistas, trumpiannos, etc. “Empregos alemães para alemães” não apenas foi base do discurso do partido nazista mas também foi o discurso xonofóbico da alemaanha dos anos 1980.A raça superior, uberman - super homem -, foi criado com o antaagonismo de tudo que era diferente. Aí temos a gentrificação e , por consequência, a criação de campos de concentração e extermínio de qualquer indivíduo que se distanciasse de ser ideal. Judeus foram os principais alvos, uma cultura própria em uma comunidade que concentrava grande riqueza, mas logo outros grupos dque se distanciavam dessa raça e cultura ideal foram antagonizados: ciganos, negros, portadores de deficiência física e/ou mental, homosexuais, etc. Todos que se distanciaram desse homem ideal eram os outros e, por conseguinte, inferiores e merecedores de preconceito e de serem exterminados.
Essa dualidade etnocêntrica, o nós versus eles, que tem papel fundamental na construção da identidade patriótica é recorrente na história da humanidade e tem sua origem na noção etnocêntrica que existe uma escala civilizatória que separa o homem ideal, aquele que está fazendo o julgamento e se considera o ser mais evoluído, e as diferentes civilizações que se encontram entre o homem puramente animal e a civilização ideal. Rocha (2017) explica bem esta forma de perceber o mundo e suas consequências.
Como explica Alan Moore, da noção anarquista de que na união se faz a força vamos para a idéia fascista de que na unidade se faz a força. Do autogerenciamento de indivíduos unidos para um bem maior vamos para a normatização dos indivíduos em favor ao poder um uma classe dominante. Em vez da união, a agregação e engajamento de diferentes indivíduos, vamos à criação de uma sociedade padronizada onde o indivíduo é apenas mais uma peça no sistema composto pela estrutura social. Dos mutirões comunitários vamos para a classe média que se revolta com os pequenos confortos que os pobres podem conquistar. Da aceitação, inclusão e integração do outro vamos para o ódio pela diferença e a necessidade clara de definição e manutenção de regras de controle do diferente. Do policial que se insere na rotina da comunidade que vigia, conhecendo as crianças e suas famílias e sabendo quem realmente é nocivo à comunidade vamos para a mentalidade do “A faxineira do condomínio veio trabalhar de carro. Temos que rever as contas, ela está ganhando bem demais”.
No caso do aposentado filho de imigrantes italianos temos vários aspectos que nos chamam a atenção. Primeiramente, ele está aposentado a mais de vinte anos. Não está deixando de ter emprego por causa dos novos imigrantes os quais pegam trabalhos que brasileiros se recusam. Um pós-doutor haitiano vem para o brasil para trabalhar em condições precárias na construção civil ou limpando banheiros, ganhando uma miséria, dividindo a casa com mais de dez imigrantes e, ainda assim, sendo capaz de enviar dinheiro para ajudar sua família no Haiti. São trabalhos que brasileiros não pegariam mas isso é ignorado no discurso de empregos brasileiros para brasileiros.
Outro aspecto importante é a questão de serem imigrantes. O aposentado ignora o fato de que sua família veio, fugida da europa, para branquear o sul brasileiro que, até então, tinha uma população predominantemente negra, mulata ou indígena. O governo brasileiro incentivou, e até mesmo fez campanhas, para a migração de um grande contingente de europeus para a gentrificação do sul, do branqueamento da população. Com os europeus, especialmente italianos e poloneses, o problema do negro sulista fei retificado e temos, hoje, uma região sul que se orgulha de se assemelhar à europa. Não existe o brasileiro puro mas sim vários níveis de descendência, européia, africana, etc.
Assim como Donald Trump que defende a valorização dos “americanos” contra os imigrantes, especialmente os mexicanos que ele considera vilões e drogados, Jair Messias Bolsonaro valoriza o “brasileiro” mas sem perder a reverência aos que considera superiores, o que pode ser visto em sua declaração de amor a Donald Trump (LOVE…, 2019):
É uma dura realidade mas o Brasil nunca deixou de ser colônia, sempre necessitou de uma nação pai. Começamos com o s portugueses, passamos pelos espanhois, franceses, ingles e, agora, estadonidenes. Nós, como nação, precisamos de uma covilização de referência que nos formate cultural e politicamente. Diferentemente dos fascistas italianos, nazistas alemães e conservadores norte americanos, nós não nos vemos no local de a sociedade ideal, mas abaixo dela, na escala evolutiva. Consideramos os migrantes como bestialidade animalescas, seres inferiors, mas ainda nos percebmos como longe do idel. O sonho de grande parte dos brasileiros é ser norteamericano, consumir e viver de acordo com os valores e práticas apresentadas pela cultura de massa norte americana.Coca Cola, McDonalds, tênis de marca.
Essas diferentes identidades, como as dos brasileiros e dos imigrantes, são construída através da linguagem e sistemas simbólicos que dão significado à essa diferença (WOODWARD, 2014). A identidade do grupo é construída no pretenso resgate de alguma tradição idealizada gerando assim um amplo conjunto de valores e práticas. Na guerra dos sérvios e croatas até mesmo os ítens de consumo, como cigarros, eram segregados. Existiam os cigarros sérvios e os cigarros croatas. Mesmo sendo vizinhos e, por vezes interagindo nos mesmos grupos sociais, em suas identidade patrióticas seu ódio uns pelos outros era fervoroso.
Em nossa cultura, temos algo muito similar a esse antagonismo na forma das torcidas de futebol. O esporte une multidões das mais variadas classes sociais ao mesmo tempo que as separa em grupos específicos para cada time. Temos coletivos para cada torcida, unidos em seu amor pelo esporte e clube de escolha e separados dos outros pelas diferentes identidades baseadas no pertencimento a cada grupo. Em dias de jogos do Atletiba são comuns a guerra entre torcidas, depredação de bens públicos e privados e até mesmo abusos sexuais às adolescentes e mulheres que possam estar nas ruas. Na euforia do antagonismo, o pior do ser humano é liberado na afirmação dos valores do grupo e os indivíduos, que sozinhos nunca seriam capazes de tais atrocidades, se empoderam no pertencimento a algo maior do que eles, a identidade coletiva da torcida, e cometem qualquer tipo de atrocidades. Suas identidades são contraditórias. O pai de famlília que nunca levantou a voz para eus filhos e sempre agiu de maneira sensata se torna integrante de um grupo de linchamento que pode chegar a mataar integrantes do time aadversário.
O elemento simbólico mais característico destes grupos, as camisetas dos time, são o principal item de identificação dos indivíduos. Se apropriando das práticas desses grupos, os movimentos de revolta popular dos últimos dez anos tem utilizado a camiseta, no caso verde e amarela - como a do time do Brasil -, como símbolo fundamental dos movimentos. Esse ítem de vestuário trás em sua tentativa de resgate e criação de uma identidade nacional que, em realidade, nunca existiu. O que conhecemos como cultura brasileira é uma realização do movimento modernista e do governo federal de uma tentativa de criar a identidade cultural única do brasileiro. Na arte, enquanto tentavam construir obras modernas, foram resgatados artistas do passado de forma a construir uma história oficial da arte e cultura brasileira. Foi construído o mito do escultor aleijadinho e a ele associadas incontáveis obras, algo questionado por pesquisadores e especialistas. N música temos a apropriação do samba, música boêmia altamente influenciada pelo jazz e blues americano e pela salsa argentina. A saída do cenário boêmio, especialmente do Rio de Janeiro, contou com a utilização de recursos do exército brasileiro, o que levou aos desfiles das escolas de samba e com a grande ênfase na percussão. As escolas de samba desfilam pelas ruas em uma marcha coreografada de forma muito semelhante aos desfiles militares de sete de setembro e, por anos, contaram com as bandas e veículos militares disponibilizados pelo governo de forma a criar grandes eventos que foram crescendo e tomaram a forma de um dos símbolos mais importantes do país, tanto no campo cultural quanto financeiro. Adicionando toda a essa grandiosidade à prática pré-existente da carnavalização, uma festa de subversão dos valores oficiais através da utilização de fantasias foi construído, assim, o grande espetáculo da identidade brasileira. Uma tradição é construída de forma a parecer um evento enraizado na história da cultura enquanto, em realidade, é algo bem recente - esse processo é muito bem documentado por Hobsbawn e Rang (2000) em sua obra “A Invenção das Tradições”.
A camisa verde e amarela é, também, símbolo do movimento integralista que tentava construir uma sociedade fundamentalmente fascista, sendo que seu idealizador em sua forma brasileira, Plínio Salgado, chegou a conversar pessoalmente com Bento Mussolini, idealizador e líder do partido fascista italiano, durante seu processo de formulação da Ação Integralista Brasileira.
Tomando como base os valores da direita e ideologia religiosa católica, o movimento integralista tentou construir a identidade nacional brasileira, uńica, em um país onde existem culturas diferentes, das mais variadas influências, em cada localidade. Era um esforço de construir uma identidade única encaixando partes incompatíveis de culturas locais com a imposição de um estado com base religiosa. Conseguiram uma boa inserção no quadro político nacional com a eleição de vários vereadores, prefeitos e deputados, mas nunca alcançaram o poder político necessário para materializar seus planos e, com o tempo, o movimento perdeu força e acabou se desmanchando. Vale a pena ressaltar que, assim como seus irmãos nazismo e fascismo, o integralismo prega a unificação do povo através da formatação dos indivíduos em um padrão e o ódio pelo diferente e a não aceitação de desvios em relação aos valores pregados pelo movimento.
O movimento integralista morreu mas a necessidade de uma identidade nacional única e baseada no ódio pelo diferente não apenas sobreviveu mas chegou à presidência do país. O presidente se elegeu fazendo, e ensinando crianças a fazer, o símbolo de armas com as mãos (AZEVEDO, 2020) e ameaçando matar todos os os petralhas do Acre (PODER360, 2020). E, como toda colônia, emprestamos dos Estados Unidos os seus inimigos políticos, em especial os chineses e comunistas (PLANALTO, 2020).
Nesta realidade, as xenofobia é sistêmica e objetiva a construção e manutenção de uma identidade patriótica artificialmente criada em um processo de padronização de indivíduos que podem, então, funcionar como peças intercambiáveis no sistema sócio-político.
Referências Bibliográficas:
ROCHA, Everardo. O que é etnocentrismo. São Paulo: Brasiliense, 2017. 76 p. (Primeiros Passos)
LOVE Is in The Air " Veja o Momento Que Bolsonaro Diz "I Love You" a Trump. 2019. Color. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=RfGelP64c4M. Acesso em: 29 set. 2019.
WOODWARD, Kathryn. Identidade e Diferença: uma introduçãao teórica e conceitual. In: HALL, Stuart. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.
HOBSBAWN, Eric; RANG, Terence. A Invenção das Tradições. Rio de Janiero: Paz e Terra, 2000. 316 p.
DORIA, Pedro. Fascismo à brasileira: como o integralismo, maior movimento de extrema-direita da história do país, se formou e o que ele ilumina sobre o bolsonarismo. São Paulo: Planeta, 2020.
PODER360, No Acre, Bolsonaro fala em 'fuzilar a petralhada' e enviá-los à Venezuela, 2018. Color. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=p0eMLhCcbyQ. Acesso em: 10 outubro. 2020.
AZEVEDO, REINALDO. Bolsonaro ensina menina a imitar arma com a mão. 20188. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=p0eMLhCcbyQ. Acesso em 10 de outubro de 2020.
PLANATO. Discurso do Presidente Jair Bolsonaro na 75ª Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU). 2020. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=821wal-DuEA. Acessado em 10 de outubro de 2020.
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