Neil Gaiman explicita a estupidez brasileira
Trinta e três anos atrás, durante a segunda invasão britânica nos quadrinhos americanos, o escritor britânico Neil Gaiman criou e escreveu sua obra prima, a série Sandman . Lançada pelo selo Vertigo da DC Comics, a série misturava cultura erudita com cultura pop e, através do uso de seres mitológicos, apropriados ou criados por Gaiman, explorava o tecido social e as fronteiras dos tabus, valores e práticas da sociedade contemporânea. Negros, gays, travestis, transexuais e vários outros tipos de minorias dividoam as páginas com William Sheakespeare, Lord Byron, Sonho e, até mesmo, a Morte que em sua descrição era uma jovem garota gótica.
Sandman revolucionou o mercado das histórias em quadrinhos ao tratar de forma adulta e despretensiosa vários dos tabus de um mundo onde o preconceito com o diferente era institucionalizado.
Agora, finalmente após mais de três décadas, as histórias em quadrinhos estão sendo adaptadas para uma série televisiva por ninguém menos do que o pŕoprio autor que já viu produzidos seriados baseados em dois dos seus livros: Deuses Americanos (American Gods) e Bons Presságios (Good Omens).
No twitter, pessoas requisitaram a Gaiman que, ao atualizar a história para o novo milênio, não a alterasse para incluir as minorias, sendo “politicamente correto”.
O autor explica o fato de que em todos esses anos, apenas os brasileiros questionaram, e antagonizam, a representatividade de pessoas negras, gays e transexuais características da obra; O que é mais absurdo é que, de acordo com o próprio autor, as pessoas que reclamam da representatividade de minorias na nova série nunca leram sua obra em quadrinhos pois, se tivessem lido, saberiam que essa representatividade era justamente um dos pilares da narrativa das histórias de Morpheus, o Sonho dos Eternos. Mais uma vez os brasileiros implicam e puxam briga sobre assuntos que nem sequer sabem do que se trata.
Essa noção de superioridade moral sempre existiu mas se expandiu depois que o atual presidente, Jair Messias Bolsonaro, venceu as eleições em 2018. Mesmo antes de ele tomar posse no cargo, a taxa de feminicídio, homicídios de LGTB’s e membros das classes menos favorecidas subiu absurdamente.
A intolerância religiosa chegou a novos patamares e a depredação de terreiros de Umbanda por parte de evangélicos se tornou ocorrência cotidiana enquanto o preconceito contra ateus se tornou uma constante na vida do brasileiro. Qualquer crença que não seja evangélica neopentecostal ou católica é considerada aberração que deve ser extirpada. O direito de se escolher no que se acredita assim como a liberdade de expressão, a não ser que a opinião esteja de acordo com as “verdades” do coletivo, não mais são aceitos.
A implicância da população contra personagens gays, lésbicas e transexuais nas novelas, principal item de consumo da indústria cultural brasileira, sempre existiu. As pessoas se negam a aceitar um relacionamento homoafetivo como normal e ficam reclamando da representação dos mesmos em suas queridas narrativas.
A incapacidade de se aceitar a ficção com opiniões alheias teve seu ápice no ataque à produtora do grupo humorístico Porta dos Fundos por causa de seu especial de natal que representava Jesus Cristo como um homosexual. Não importa se o conteúdo da estória era ofensivo para cristãos fiéis mas o fato de que, legal e moralmente, o grupo tem o direito de expor suas idéias. A forma de refutar o conteúdo é não assistir o filme ou, pelo menos, reclamar sobre o assunto sem apelar para a violência.
No caso dos internautas brasileiros contra Sandman o caso é ainda mais preocupante: a implicância é contra grupos sociais inteiros em um contexto onde o preconceito é elemento estrutural da cultura nacional. É o caso da opinião sem o conhecimento, sem fundamentação alguma.
Neil Gaiman é famoso por explorar a diversidade, sendo a real como a de seus seres fantásticos. Em Deuses Americanos o protagonista é negro e durante a história existem descrições de relações homossexuaos. Sensualidade e sexualidade são amplamente explorados em Sandman assim como diferentes etnias e culturas.
A parte da população brasileira que exige a não inclusão de minorias desconhece a obra do autor o qual deixou bem claro que dos 195 países que compõem o mundo contemporâneo, apenas o Brasil tem antagonizado a representatividade de minorias em suas obras.
É a mesma ignorância da classe média que não quer pobres nos shopping centers nem que os pobres seja capazes de comprar os mesmos ítens que eles, viajar de avião. É aquela parcela que acredita que, para serem superiores, as classes mais baixas devem ser miseráveis, que acreditam que se a faxineira consegui, depois de décadas, comprar um carro, ela está ganhando bem demais e seu salário deve ser repensado.
Essas pessoas são “detentoras da verdade”. Uma verdade única, universal e imutável em uma existência maniqueísta. É preto no branco. Mas, infelizmente para eles, a verdade é mais complexa em si mesma. Ao contrário de ser uma lei da natureza é um construto social: o coletivo concorda que algo é verdadeiro. É por isso que a terra foi o centro do sistema solar por tanto tempo, por isso que a terra foi plana - apesar de pessoas como Olavo e Carvalho ainda acreditarem nisso - e o homem foi criado a partir do barro e não foi fruto de milhões de anos de desenvolvimento biológico e cultural. E, mais preocupante ainda, essa “verdade” declara a superioridade de certos indivíduos em relação aos outros. Usando parâmetros como raça, crença, orientação sexual, localidade geográfica, a sociedade é classificada, organizada em “castas”, e a igualdade entre sujeitos, conquistada no iluminismo, acaba sendo nulificada em nome da construção de uma elite moral.
Mas isto é um preconceitos estrutural, não apenas institucional. As instituições não são corrompidas pelo preconceito mas fazem parte de um contexto em que o preconceito faz parte da estrutura, em valores e práticas, da sociedade como um todo. Cnetoe poucos anos atrás a escravidão era algo normal pois os negros eram biologicamente, e punidos por Deus, inferiores aos brancos e assim eram incapazes de serem seres civilizados sem a intervenção dos colonizadores.
O que torna essa situação ainda mais preocupante é a negação do racismo por parte do governo, especialmente do presidente, o qual afirmou que o Brasil não é um país racista e qualquer tipo de racismo aqui existente é importado. A base do governo atual tem institucionalizada a discriminação. O poder executivo, o senado e a câmara de deputados todos utilizam Deus como embasamento para argumentos de extrema disciminação através da utilização de citações bíblicas descontextualizadas. Assim como o internauta que fica implicando com as obras de arte inclusivas, os representantes do povo utilizam argumentos falhos baseados em assuntos que não estudaram. Pessoas que leem a bíblia não a utilizam como munição para destruir aqueles que consideram inferiores pois percebem que a bíblia não é um livro único, com apenas uma voz e escrito por pessoas que vivenciaram os eventos que descrevem. A bíblia foi escrita durante séculos por vários autores que variam sua participação no eventos a pessoas que transcreveram histórias que haviam sido transmitida por gerações pela cultura oral. A bíblia é, portanto, uma antologia e seus textos não podem ser considerados em sua totalidade como verossímeis e materiais sem a liberdade poética como no Salmos 23, “O senhor é meu pastor, nada me faltará” ou salmos 18 “O Senhor é o meu rochedo, e o meu lugar forte, e o meu libertador; o meu Deus, a minha fortaleza, em quem confio; o meu escudo, a força da minha salvação, e o meu alto refúgio”.
A bíblia tem, também, uma grande diferença ideológica entre o antigo testamento, ‘do olho por olho, dente por dente”, e o no testamento, do “ofereça a outra face”. Qual está certa? As duas são incompatíveis.
O brasileiro utiliza a bíblia como espada, para atacar os outros, e como escudo, como forma incontestável de defesa de suas opiniões infundadas. Nunca leu o livro sagrado, apenas cita as partes que o padre ou pastor referenciar durante a missa ou culto. O mesmo acontece no âmbito político. Acreditam que comunismo é algum tipo de ideologia satanista sem saber o que comunismo e socialismo realmente são, não entendem o fato de que os direitos trabalhistas foram conquistados através das batalhas da esquerda no âmbito político e, quando encurralados em uma argumentação sobre o governo atual recuam para o mesmo argumento “Pior que com o PT não pode ficar”. Não é apenas a ignorância em si mas o orgulho de ser ignorante como o indivíduo com ensino superior completo que se gaba de ter lido seu último livro completo na sétima série, um livro da coleção vagalume.
É uma sociedade fundamentada no achismo, na percepção de mundo que não vai muito além da esquina de casa e desconsidera todo o conhecimento desenvolvido pela humanidade por milênios. São realidades individuais criadas através da conformação do mundo através das ideologias e preconceitos pessoais.
É deprimente ouvir de um autor tão celebrado internacionalmente que os brasileiros são ignorantes e arrogantes, que querem reconfigurar o mundo de acordo com nossa noção distorcida de realidade. Ele, como sempre, foi muito polido durante a entrevista, mas seus argumentos são fortes e sua indignação é preocupante.
E o que esses brasileiros iriam pensar das obras de Grant Morrison, contemporâneo de Gaiman na Invasão Britânica e autor de grandes obras como Homem Animal, onde brinca com a quarta parede da ficção, Patrulha do destino, onde faz experimentos narrativos como a construção dadaísta da obra com personagens como Crazy Jane e Dany, a rua transexual, e os Invisíveis onde os protagonistas são anarquistas sendo que um deles é uma bruxa travesti brasileira?
É uma triste realidade. Somos uma nação inculta, ignorante, arrogante e violenta e, como nação, nos orgulhamos disso. É preocupante que um autor como Neil Gaiman, famoso por promover o acesso a bibliotecas e a leitura para desenvolvimento intelectual e social de crianças, tenha que ser a pessoa que, a contragosto, tenha que constatar essa óbvia realidade.
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