Nômade
Lembro de certa vez ter lido
Em um livro sobre magia e filosofia
A diferença entre o turista e o viajante
O turista desloca-se ao seu destino
Interage com seu ambiente apenas através da mediação do guia turístico e da máquina fotográfica
Nesse contexto, o turista é o centro de mundo
E, ao retornar à sua rotina, nada muda
Apenas exitem mais fotos nas redes sociais e, talvez, algumas histórias para contar aos conhecidos
O viajante aventura-se pelo percurso
Experimenta o diferente, encanta-se pelo desconhecido e apaixona-se por tudo aquilo que lhe era exótico
Passa o tempo imerso na cultura local
Tendo sua essência alterada a cada novo detalhe que toca
É incapaz de retornar à sua vida pois, através das experiências, já não é mais a mesma pessoa que partiu.
Lembro de quando minha musa
Proporcionou-me a inspiração necessária para perceber
Que nessa história faltava mais um personagem
O nômade
O nômade é como o viajante
Experimenta o mundo em vez de comoditizá-lo
Não nega o que lhe é inconveniente
Saboreia as várias formas de diferença, do exótico, do outro que, ao contrastá-lo, o ajuda a definir suas próprias identidades
O nômade não entende um mundo de fronteiras burocráticas
É um ser universal – ama a existência em seu todo
Desde as grandes obras da humanidade até o grão de areia a seus pés
Pois cada coisa lhe possibilita uma nova e única experiência
O nômade não teme ou se revolta com os imprevistos e com os acidentes
Os planos, para ele, são meros guias, rascunhos
Não um projeto perfeito, impassível de modificações
Ele percebe as possibilidades existentes entre o caos e a ordem
Mas o que demorei a perceber
Foi que minha musa havia me presenteado com muito mais
Com a matéria-prima para perceber
Que ser nômade não é, necessariamente, ser solitário
Na constante movimentação entre um destino e outro
Nos intervalos, quando alguma localidade se torna lar
A livre associação entre nômades pode gerar relacionamentos, grupos, clãs…
Que, juntos, movimentam-se pelo mundo
Não apenas compartilhando as experiências da livre movimentação
Mas a própria experiência de ser nômade
Minha musa me ensinou
Que mesmo nômade
Posso ansiar por um forte, caloroso, e longo abraço
Nas noites frias, nos momentos de vitórias, nos fracassos…
Posso ansiar pelas mãos dadas durante o percurso
Por aquele brilho no olhar iluminando minha alma
Pela doçura no sorriso me mostrando o verdadeiro paraíso
Pelo momento de sentir a textura dos lábios que tocam os meus
E por aqueles momentos quando, depois de uma longa viagem, sentados no parque
Sua cabeça em meu colo enquanto meus dedos correm por seus cabelos
Assisto a serenidade em sua face enquanto dorme, angelicalmente
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